sábado, 30 de abril de 2011

O homem sem cabeça

http://www.youtube.com/watch?v=o538yb68hMA&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=EetfkJBogi8

O homem sem cabeça também tem vaidadeExpressar sentimentos, revelar emoçõesComo? Em que dar close?No peito.
Dançar sozinho o ensaio do encontroLembrar que o amor também sufocaPerder a cabeça eResgatar o sentimento atirado pela janelaNegar-se e buscar espelho no outro.
Amar e viver é muito perigoso.O amor é um bicho-de-sete-cabeçasque come nossos pensamentos e,por medo, cedemos.“E quem um dia ia dizer que existe razãoNas coisas feitas pelo coração?”
Anular-se, decapitar-seFoi a solução involuntáriaTenta-se atéSer o cabeça do espetáculoOu acostumar-se a ser um “cabeça pequena”.
Mas ou não se correspondeÀs expectativas do espectadorOu ao desejo do interior
Transeuntes não vêem a ausência (invisível)Ausência que também a eles preenche.
Todavia, nos lembremos:Temos mãos (e vamos de mãos dadas)Que se perca a ideologiaOu a busca da identidade (perdida?)Que nunca se encontra
Ceder apenas ao corpo, coração, peleIr embora sem por quêEsquecendo-se do euPara a infelicidade satisfatóriaDe viver pelo outro.Amor,

Nazuk

Quando Alice entra na toca do coelho, sente primeiramente uma recordação de acolhedoras antigas de ninar. Consegue inclusive ver de perto, ela bem pequena, as grandes mãos do piano que sua mãe lhe tocava nas noites quentes em que o sono vinha contra sua vontade.Já envolvida na penumbra do lugar, Alice percebe o clima favorável à dança. Sente o cheiro dos charutos soprados em pubs irlandeses escuros, em que uma jovem, embriagada pelo som, dança suavemente, sensualizada pelo batom vermelho: atraente e perigoso. Alice vê aquilo e sente que já não pode mais suportar  a vontade de adentrar aquele lugar, mesmo tomada pelo medo.Está caminhando pela selva escura e úmida. Só há a névoa azul-escura que a envolve e seduz. Do céu, ouve um apelo que a chama e alerta. Não consegue dizer não. É levada pelo canto da sereia que não a engana. Sabe que há o incerto, mas não consegue e segue. Sem cabeça (arte da rainha), Alice vai em busca do desconhecido, mergulha nas águas quentes e escuras de um mar sem chão.

Eu e a academia

Confesso: hoje sei o que é ser a pior aluna da classe. Em meus tempos de escola e faculdade, estava, muitas vezes, entre os primeiros; no máximo (ou no mínimo, a depender do ponto de vista), ficava na média. Mas nunca fui para a recuperação sequer. Filha de professora tinha de “dar exemplo”.Pois então, como dizia, sou hoje a pior aluna da turma. Onde? Na academia (não aquela sinônimo de meio acadêmico, mas a mais frequentada e quista: a de ginástica).Antes de começar, todo um ritual: comprar um tênis novo, bermuda de lycra e até um squeeze descolado. Toda paramentada, lá vou eu, buscar perder uns quilinhos e tentar, mais uma vez, me enquadrar aos padrões estéticos impostos pela sociedade capitalista ocidental, ou seja, queria ficar no “shape do verão”. Logo de início, mais uma daquelas constrangedoras avaliações físicas em que teoricamente se mede nosso percentual de gordura corporal; mas, na prática, a intenção é torturar os gordinhos com os beliscões daqueles aparelhos em formato de pinça apertando nossos pneuzinhos, como se dissessem: “viu no que dá levar tanto tempo para tomar vergonha na cara e vir aqui tomar uma providência?” Mas tudo bem, passamos pelo constrangimento inicial sem graves problemas e partimos para a malhação de fato, com boa vontade.Começa uma aula empolgante (!?) de Power Jump (parece que usam os nomes em inglês para tornar a coisa toda mais moderna, lúdica, atrativa)! Todo mundo em cima de suas caminhas elásticas e de frente para um enorme espelho com luz e tamanho suficientes para apreciarmos nossas fofas pelanquinhas saltitando mais do que o enlouquecido professor que berra sorridentemente: “Vai linda! Joga fora esse pneuzinho! Vá embora celulite!”Meu Deus, o homem tem a cara-de-pau de chamar de “linda” aquela para cuja celulites ele mesmo aponta do jeito mais indiscreto possível! Na moral, eu acho que não mereço esse discurso forçado de auto-ajuda, sério mesmo. Se era pra dar uma de Paulo Coelho, era melhor ficar calado. Mas tudo bem, eu persisto, finjo que não é comigo e me concentro na respiração para não fazer feio, tentando não parecer tão ofegante na frente das minhas colegas. Ô, minha gente, minhas colegas de academia! Essa é a pior parte! Além de quase todas terem os músculos definidíssimos (sinceramente, se eu tivesse um corpo daqueles, já teria deixado a academia há muito tempo: já tinha surtido efeito), conseguem seguir impecável e sincronicamente todas as mirabolantes coreografias inventadas pela mente criativa do professor que berra irritantemente, com um fôlego que não acaba nunca. Enquanto isso, eu procuro sobreviver àquela situação, errando absolutamente todos os passos e tropeçando em minhas próprias pernas! Aff! Mas... Tudo bem! Preciso superar. Para piorar, o professor (sempre ele!) em vez de fingir que não está vendo, de fazer de conta que não estou ali, prefere falar diretamente comigo: fica do meu lado e diz que o passo é fácil, repete: "1, 2, 3, 4... 1, 2, 3, 4". E eu lá, persistindo, disfarçando, querendo loucamente acertar para me desviar do foco das experts que se acabam lá na frente. Todavia, para variar, fico ainda mais nervosa e faço coisas piores. É... eu consigo me superar.Mas – de novo! – tuuudo bem, resisto e aprendo uma “opção facilitada” exclusivamente para mim, enquanto as outras saltam em perfeita sintonia entre si e a música. Terminada, enfim, a aula, não acaba o constrangimento: vamos pegar peso, mulher! Lá estou eu, levantando orgulhosamente um pesinho de dois quilos em cada mão, enquanto, ao meu lado, alguém que, na minha concepção, não tem mais motivo para tanto sacrifício carrega, sem piscar, mega alteres daqueles que parecem ser feitos com pneu de caminhão.Fugindo do espelho, olho para cima, para um restinho de parede todo “decorado” com homens e mulheres super sarados, suados e envoltos numa atmosfera, literalmente, sexy. Olho novamente a minha imagem no espelho e desconstruo de vez aquele discurso ( inventado para consolar gordo) de que seria ridículo alimentar a indústria da beleza. Gente, não há ideologia cabeção que resista a tamanha apelação! É demais para mim. Dou graças a Deus por meu amigo ter deixado de frequentar aquele lugar. Meu mico seria muito maior.Saio da academia questionando a teoria que afirma que o exercício físico proporciona bem-estar. Procuro um resquício que seja da famosa endorfina, mas só me sinto um Chris Rock. Agora sei como se sentiam meus colegas de escola que só sentavam no fundo da sala e me olhavam com raiva quando eu lia toda feliz mais uma das redações elogiadas pela professora. Nossa! Não sei como eles não me mataram, porque eu, hoje, pior aluna da academia, só não ataco com ódio as “gostosonas”, porque sei que basta um peteleco delas para eu cair dura, tremelicando as gordurinhas.Tudo bem, é assim que funciona. Sigo persistindo, falando mal das bonitonas por pura inveja (admito) e tentando compensar a falta – ou o excesso – de gostosura com outros dotes “acadêmicos” .

quarta-feira, 23 de março de 2011

Juventude e boa vontade

É inevitável falar sobre os jovens de hoje em dia sem fazer uma comparação com a geração anterior. Costumo ouvir que a juventude atual é acomodada, não tem atitude nem sonhos. Normalmente esses comentários vêm acompanhados de um saudosismo cego que, de maneira maniqueísta, só vê o jovem de antigamente como revolucionário e idealista, engajado em questões políticas e sociais. No entanto, apesar de não ter vivido “naquela época”, sei muito bem que, em tais tempos, havia também o rebelde sem causa, que ia para as manifestações estudantis única e exclusivamente para buscar uma nova paquera ou por “status” dentro da turma. Não quero aqui ser injusta: sei que houve (e sempre vai haver) os mártires que doam a vida pelas altruístas causas sociais e políticas. Todavia, se, algumas décadas atrás, as utopias juvenis eram o socialismo e o fim da opressão (“É proibido proibir...”), até hoje existem jovens que, à sua maneira, buscam melhorar o mundo.
Sei que a tendência dos ditos “adultos maduros” é julgar nossos adolescentes como alienados que só ouvem, veem e escrevem besteiras em seus mp3’s, TV’s a cabo, blogs, orkuts e twitters. Mas pensemos direito: hoje eles têm muitíssimo mais acesso à informação (se é de qualidade ou não, eles é que devem dizer, já que têm a – tão almejada – liberdade). Sem censura, a chamada “Geração Y” tem a possibilidade livre de escrever, ouvir, ler e ver o que quiser e fazer desse arcabouço cultural aquilo que seus valores individuais permitirem. Ver um aluno assistindo a uma aula de Gramática com um fone no ouvido é, de fato, irritante. Porém não posso negar que seu ato é também uma forma de rebeldia, uma maneira de expressar sua opinião sobre aquilo que, naquele momento, não lhe interessa. Uma manifestação (não era isso que queríamos?) de atitude, opinião, tentativa de mudança.
Não estou querendo dizer que tudo agora deve ser permitido. O adolescente de hoje (assim como o de qualquer outra época) precisa conhecer os seus limites. Já dizia Jean-Paul Sartre que “liberdade só existe com responsabilidade”. Não é descumprindo regras aleatoriamente e a todo tempo que se consegue o que se deseja. Muito pelo contrário, deve-se encontrar um meio de, dentro do sistema, com diplomacia, alcançar aquilo que almejamos. Esse é o ponto que me preocupa. A liberdade “conquistada” pela geração anterior não pode ser confundida com o caos ou a acomodação.
Mas tenho plena convicção de que os jovens de hoje, ao contrário do que muitos pensam, têm sim capacidade de construir novas formas de melhorar muito o nosso mundo. À maneira deles, é possível que haja mais respeito à diferença (pois, na internet, por exemplo, há espaço para todas as tribos), mais amizade (vejo muito, cada vez mais, os estudantes unidos) e mais felicidade (não há como negar que esses adolescentes vivem rindo à toa).
Se tenho algum conselho a dar... Dá-lo-ei a todos nós (jovens e não-jovens): respeitemos as opiniões dos outros com atenção. Quem sabe eles não têm razão? Será que não somos apenas nós que, egocentricamente, achamos que a nossa maneira de ver o mundo é a única correta? Lembremos do que disse Renato Russo (“Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?”). E os já mais velhos podem entender da seguinte forma: Você julga os jovens por tudo. Isso é absurdo. São crianças como você. O que você já fez antes de “crescer”?