terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Terra-Natal

   Ali nasceu o menino. Numa terra simples e rica de gente, com criança, cachorro e doido no meio da rua, brincando. Em frente à igreja, na praça que tipifica qualquer tom interiorano, um presépio delicado ilumina as mãos dadas dos namoros que sempre serão lembrados. À noite, o cheiro do jasmim é mais forte, perfumando os cabelos daquelas que se apaixonam pela delicadeza de pequenos gestos.
   A casa é tão viva quanto a cidade e os corações dos que a habitam. Dela emanam as luzes de Natal e de duas mães: a primeira carrega a sabedoria da tripla maternidade, dita duplicada pela graça de ser avó. Ela cuida da casa, do marido tão doce, das roupas do netinho e dos filhos (que podem estar perto e longe, independente de estarem no quarto ao lado ou sós na capital). Cuida também dos sentimentos da cidade, sua fé e seu futuro, generosidade personificada. Mas não deixa de também cuidar de si: vaidosa, mantém os cabelos impecáveis, macios para os afagos de tantos que a amam e que, mesmo não tendo saído do seu ventre, a chamam de mãe.
   A segunda vive a plenitude da recente chegada daquele a quem ela dedica incansável cuidado e ternura. Vive a exclusividade da amamentação e do zelo ao centro do carinho da casa. Ainda não ouviu para si a doce pronúncia do nome que carrega o significado do que hoje ela é, mas é quase assim chamada: responde a alguns pelo apelido de Mã (ensaio para quando chegar a próxima vogal).
   O Natal só existe porque existe a Mãe. É ela a terra onde nascem os meninos que brincam de ser homens quando estão longe. Mas eles sempre voltam. E quando nela estão, sua leveza de infância renasce palpável em seus gestos, sorrisos, olhares e palavras. Perto da Mãe-Terra-Natal, são sempre (e que assim sejam) apenas meninos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Fêmina

Quando nasci,
um anjo bendito
(envolto num manto azul)
anunciou:
serás como eu,
destinada a ser costela.

Mas me fiz extremamente:
reneguei-me feminina,
enxerguei-me feminista,
sem saber que, nesta sina,
posso, menos extremista,
ser as duas, simplesmente.

Do passado renascida
tendo  força delicada,
e na causa em mim erguida,
na bandeira carregada,
em mim mesma gesto vida
em meu mundo sou jornada.

Meu futuro descortina
no que cumpro destinada:
ser moderna feminina
mesmo forte, ser cuidada.

Ser Simone se souber
Ser Amélia se quiser
Ser Clarice se puder
Ser Alice se couber

Hoje sei que tenho escolha
no direito que meu é.
E se sou de mim a dona,
eu decido:
sou mulher.




domingo, 16 de outubro de 2011

Infância de Meninos

Naquela antiga cidade, três pequenos jogavam bola. Na brincadeira deles, havia algo além da ingenuidade dos meninos do interior, era a beleza do início de uma irmandade. Banho, escola, missa, meninas, e eles sempre juntos, rindo-se plenos.
Hoje, são homens na cidade. Andam sérios, cumprindo-se honestos. Mas jamais serão homens da cidade: sua Terra se faz Nova nos momentos de descuido, quando revivem em memória sua infância. Os três hoje se sustentam ainda pela inspiração daqueles tempos, mesmo que não saibam. Se não fosse a pureza daquela felicidade, o mais velho não seria o mais menino dos três: virou artista. Os outros dois ainda tentaram outros caminhos, mas a vida os conduziu à profissão mais bonita para quem ainda tem esperança: são professores.
E não há espetáculo mais belo do que ver o reencontro deles. Os cumprimentos não são os apertos de mão civilizados que se impõem aos homens. Não. Eles trocam beijos, abraços, carinhos e palavras de amor. E também, numa atitude que incrivelmente não é contraditória, riem um do outro, em galhofas e enxovalhos, lembrando inconfessáveis momentos que viveram juntos.  Apelidados, revelam detalhes das intimidades de cada um e, ainda hoje, cobram uma peça de roupa que ou outro pegou emprestado sem pedir e admite que não mais devolverá.  Os que apreciam o incêndio deles não se chocam. Não. Eles se amam como crianças ainda, mas se respeitam como homens.
A beleza do passado se renova no presente, fazendo dos três meninos fortes para suportarem as dores da caminhada, mas também ainda doces, para seguirem sonhando. Do futuro deles três, apenas uma certeza: jamais se separarão. Compadres, irmãos, amigos. Trarão junto suas esposas, filhos e netos, para os quais contarão, com a mesma alegria de sempre, histórias de sua infância. 
Há quem diga que não se fazem mais meninos como antigamente, mas, acredite, ainda há quem os inspire.
 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sincretismo

Meu querer, sem querer,
era quase carnaval:
em face de farra.

E você - ao meu ver -
era missa de domingo:
de família e fraque.

Mas vivemos a certeza
a surpresa da beleza
do destino que nos resta.

Nosso amor é assim
é lavagem do Bonfim:
é da fé que se faz festa.

Em completude.

 

Fases

Em sonho,
trago.
(Criança)

Em vida,
sopro.
(Agora)

Enfim,
recordo.

(...)

De acordo,
não mais acordo:
não me nego ao cordis:
concordo.
Conforme.

sábado, 8 de outubro de 2011

Heideggeriana

Não é nos milésimos de segundos que existimos: é nas lembranças dos instantes. Cada momento singular nosso é vivido tão rapidamente, que não há tempo para sentir o tempo. Uma melodia só se constrói única porque guardamos n’alma cada nota que escutamos e rememoramos todas as anteriores ao ouvirmos a seguinte, tecendo a música na lembrança. É assim que nos fazemos: somos seres da memória. E quando ela se torna recordação, passamos um grande tempo revivendo outros tão maiores, mas que, não paradoxalmente, podem ser revividos eternamente em piscares de olhos, quando o que recordamos é tão intenso que chegamos a reviver anos em apenas uma sensação. Rever um lugar, sentir um antigo cheiro, tocar uma textura, provar um gosto ou ouvir uma voz... Cada uma dessas sensações também dura menos do que milésimos de segundo, mas tem a potência de toda uma vida. Somos o tempo; e cada tempo, que se acha dono de si, sempre só se faz e fez por nós. 
Chega, tempo, caminha ao meu lado... cansei de lutar contra quem a mim é igual. Nem te domino, nem me devoras. Decifremo-nos.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sina

Quando te vi,
vi um anjo doce,
desses que filosofam
que disse:
vem, moça,
ser livre comigo.

Ao que me constava,
ser com era não mais ser.

Mas não:
Angelicamente soube
da singela
liberdade de amor
(“Um pássaro só é seu
se assim o escolhe”)

E é assim que me despeço,
me despido da persona,
me permito que me veja,
e permeie o que meu seja.

É assim que não te peço,
te concedo sem ser dona,
teu querer que simplesmente
meigamente me deseja.

Nas palavras que escrevo,
Ouso pôr o que não digo:
Ser mulher e ser menina,
sendo sua, cumpro a sina.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Polifônico

Um pai que se faz mestre
orna com honra a sua sina.

Um mestre que se faz pai
torna destino o que ensina.

Muda caminhos,
une pessoas,
ideias
e vai.

Se os filhos se criam para o mundo,
a maior lição que aprendem
é continuar.

Ontem descobri
que, além de tudo que herdei de você,
tenho também
um irmão.

Criados juntos,
sob os mesmos ensinamentos
de um pai que só nós conhecemos,
lembramos, choramos, sorrimos e, enfim,
sonhamos.

Sonhamos com um mundo
em que o amor não precise se esconder
para não ser visto com ódio;
onde a dignidade e a altivez
não sejam simploriamente confundias
com arrogância;
um mundo que (sabemos)
é nossa missão lutar para construir.

Fraternos, herdeiros,
sigamos em frente:
há muitas pontes a construir,
línguas a traduzir,
vozes a ouvir.

Quem dera, um dia,
poder tornar o mundo
polifônico.

Em memória,
em seu nome,
faremos.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Em busca do tempo perdido

 “O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.
(Proust)

Àquela época,
saudade era do futuro.

O sommelier colhia da uva
dos vinhos que me degustava.
e ele não silenciava.

Cantavam seu uno suspiro
do beijo que ali se formara.
Ele sentindo-se Miro
e ela fazendo-se Yara.

(Bendito casmurro amanhã
lembrando quem foi capitã)

Ontem:
Irônico amor ideal
Hoje:
Platônico ou virtual.

                Saudades,
                             Sua Capitu. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Conselho de mãe

Filha, cuidado...
Nem tudo faz mal.

Pode sair sem casaco:
o frio, às vezes, aquece

A dor da febre que teve
percebo, você não esquece.

Coberta de manhas e muros,
fingindo pra quem não conhece,

quer tanto não ser mais boba,
que, mesmo não sendo, parece.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Condição de Gênero


Admito: a paixão é fundamentalmente feminina
e, ao menos em princípio,
subordinada.

Abaixo a paixonite esquizofrênica,
que fala sozinha
no meio do dia:
“tu ainda serás meu”.

Veja lá se isso é humano?
Muito mais construto de neuroses coletivas,
em conjunto com as condições genéticas\genéricas
do que se chama
mulher.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Como’ego (comigo)

Não quero me vestir de alter-lírico.
Hoje quem vos fala sou eu:
a outra – autora.

Depois do pseudo-apocalipse,
reavivada, reaprendo a ser-me
reaprendo a ler-me.
aprendo a ver-me.

A outra que já fui, hoje eu, aprendiz,
a prendo para que, presa,
possa eu predá-la.

Antropófaga de mim.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Peleja

Deseja
cereja.
Ou seja,
fraqueja.
Almeja
cerveja.
Maneja
bandeja.
Caleja...

Se veja:
(Criatura,
tem um bolo enorme 
carregando a cereja.)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

1 chamada perdida

Flama, chama
inconsciente
Cama chama,
não me atende.

Não pude saber
quem me chamou:
se foi um - fogo, verdade
ou se outro - fuga, miragem.

Problema eu não teria
se esses dois
não fossem
a mesma pessoa.

Bipolar.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dona de quê?

Orgulho extremista
Retoricamente reforçado

Discurso feminista
Teoricamente aplicado

Diz que não, que é só só
e bem acompanhada.

Diz que é dona de si,
mas bastou só um
e pouco tempo,
pra ver que seu escudo
era feito de nada.

É, mulher moderna,
Cadê agora teu nariz em pé?

Perdeu a pose que tinha
Caiu em contradição:
teu Beauvoir não cabe
nas coisas do coração.

Teu medo te fez
arisca.
Te entrega de vez:
arrisca...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Des-medo da chuva

É pena
que você realmente
ainda ache que sou eu.

É justo
que eu intimamente
hoje saiba quem sou eu.

É fato:
os nós que faziam de nós cegos
desataram-se.

Desiste!
Des-existimos.
Existe você.
Existo eu.
Nós nunca mais.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

O sonho de Alice

   Alice teve um sonho.
   Sonhou que ela mesma era um espírito que a acompanhava secretamente.
   Passou a contemplar cada passo, gesto, apalavra, ou escrito seu. e sonhou que aquela alma, boa, não tinha como não cair de amores por ela.
   Alice acordou confusa. Ela era, enfim, amável. Descobriu, em suas próprias e inexploradas entranhas, um sentimento incipiente e prematuro (e o seria sempre assim). Ela queria ouvir sua própria voz, observar seus mais singelos traços ou trejeitos peculiares.
   Foi quando alguém lhe disse que não: que seu sorriso estava torto, que havia opacidade e aspereza em seus cabelos e pele, mas que ficasse bem, que o melhor a si era o amor próprio.
   Alice esteve atônita, não sabia o que pensar. Mas é justamente no meio do tormento de pensamentos, que se sabe de verdade daquilo em que se crê.
   Aquele, sim, foi o verdadeiro despertar de seu sonho. Resignou-se com a pouca beleza que tinha e foi viver seu destino infeliz.

Considerações sobre a velhice e o arcadismo

   Toda história, para ser bela, tem de ser verdadeira. E a minha verdade de hoje tem a beleza de uma antiga canção triste, de um ancião solitário depois de uma vida de humanidade farta e profana.
    A presença constante do vulto mórbido o acompanha sombriamente, à nuvem dos seus olhos opacos. Mas, às vezes, num lapso do presente, jorra às suas faces - a olhos vistos - o que se pode chamar de a mais empírica das recordações. E ele sente até o cheiro fresco de uma juventude distante. 
    Cansado da sua real condição atual, empenha-se em alienar-se no delírio efêmero d'outros tempos. E vive suas memórias, caduco chamado. É nesse instante que sua rouca voz canta aquela canção menos velha do que melancólica. Não me atrevo à pretensão de aqui tentar descrever a delicada beleza desse sentimento. a resignação é imposta pela força do tempo e por aquela presença sombria, invariavelmente pronunciada, mas calada pelas reações pseudo-otimistas dos parentes que lhe cuidam.
    A melodia, longamente pronunciada, chora em lamento, e a letra lembra uma amada de indizível candura, mãe perfeita, imaculável, amor eterno. Canta também a tristeza arrependida de não ter vivido o sentimento como hoje imagina que devia. Não se considera merecedor da sorte que teve à época e talvez por isso, por penitência do destino, hoje amarga a pior das dores: a culpa.

   Esses tempos que tenho vivido nada mais são do que o efêmero instante que dura a canção. Sinto que ele já acaba e eu volto à angústia citadina, numa saudade bucólica dos momentos condoreiros de que já começo a me despedir.
   Desde então, repito refrões e tomo fôlego para a estrofe final.

Cordel da ressaca de Junho

Tu vem, para a cidade
para tudo, para eu.

E eu, parado em tu,
fico besta, atrás,
oferecendo quentão.

Tu, modernosa,
diz que tu que paga o teu.

Fico igual um pinto tonto,
procurando prosa.

Tu pensa que sou abestado
só porque eu falo errado.
Eu sou não, é bem verdade
que eu também já tô cansado
dessas moça da cidade
melindrosa e bacharel

Quero ser teu namorado
e não vai ser caridade:
Tu vai ver como é gostoso
chamegar com tabaréu.


De Felícia a Perninha

Me fartar de torta de chocolate
numa tarde azeda de domingo
Ou dormir no meio de um filme cabeção
Desafinar berrando uma letra dos Hermanos
Fazer trocadilhos infames e hilários,
rir de qualquer besteira
Cantar o hino a Santo Antônio (em Latim!)
ou descobrir um novo São Sebastião (em Inglês...)
Estrear um carro novo
Dar plantão no Facebook
Medicar toda a família:
mãe, pai, tia, irmã, prima
e tantas vezes a mim mesma
nesta minha rouca voz, louca.

Ver o primeiro sol do ano...
e partilhar minha história mais triste
sem pudor e confiante
desde a primeira vista.

Como me sinto nessa companhia?
Materna, fraterna, querida, cuidada, feliz.

Veio parecendo um pai
que a vida me tomou
Hoje é quase meu irmão
ou meu filho, meu amor

Se há alguém que seja grata,
esse alguém sou eu, amigo,
pois que, desde aquela data,
carreguei você comigo.
De tanto dizer "de nada",
eu que digo: obrigada!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Junho Onírico

Na ida:

As malas cheias de couro, xadrez e vaidade.
Os carros cheios de malas, gente e vontade.
As ruas cheias de carros, pressa e quimera.

Na volta:

As gentes cheias de falta, talvez de saudade.
As pressas cheias de ócio, fumaça e cidade.
Os sonhos cheios de pólvora, poesia e espera.

De volta:

As ruas, os carros, as gentes, as pressas...
O mesmo.
Já chega de sonho.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Retorno

Acabou o tempo,
                     a sorte
                        e a arte

Mas eis que de repente
a luz chega e cega o fim 
e surge o recomeço.
Do nada.

Resiliente.


sábado, 18 de junho de 2011

Era você que estava mundialmente conectado

Era você que estava mundialmente conectado

Antes deste mundo onipresente, os amigos tinham o direito de perder o contato e contar que não mais se continham em mesmos espaços, e assim, se perdiam pelos caminhos.

Mas hoje, quando nos encontramos ao vivo, não temos por que dizer que foi a distância: sabemos de todos diariamente, e simplesmente selecionamos quem vamos curtir ou seguir.

Que distância é essa que não é mais real, dentro da proximidade virtual cotidiana?

Vivo mais ao lado do mundo do que de quem já me viveu fisicamente...

Saudade do tempo do toque...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Impera-atriz meretrícia

Se o poeta é um fingidor,
a poetisa finge-dor
mais completamente,
mentindo que não a sente.

Cigana oblíqua,
ri ao Impera-dor,
sentindo que não a mente.

De amor tece seu canto
que amortece seu pranto.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ressaca do dia 12 e promessa do dia 13

Ontem, Santo Antônio,
confesso: olhei pra trás
e, graças a Deus,
tudo aquilo foi a Hades!

Que eu siga assim
só e pra mim
e fim!

Será?

Olha, que vos afogo
em tortura pagã 
se não ganho meu afago
noutra sua data vã!

Hum!



quinta-feira, 9 de junho de 2011

São Valentim

Ele chega,
canta,
liga,
cutuca.

E falta.

E eu, só,
vendo o sol ir embora
ver-me-lho.

E o ver-de cá
será?
(tadinho...)

Amar-ele este sorriso, amarele, viu?
resigna, digna, sozinha...

Digo agora que é só data
anual, capital, coisa e tal

Neste dia
vil?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sommelier

“Não era mais uma menina com um livro
Era uma mulher com o seu amante”
Ele saboreia letras sinestésico
em cada canto da minha língua
Musa dionisíaco
em que eu – lírica – bebo,
essa sua antiga fonte.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Para-digná-tica

Hey, guardiã da profecia,
simplismo é cruel e burro


É fácil professar o fim dos tempos,
generalizar o gênero:
Ele com ela
necessariamente nesta ordem

Olha o mundo, professora,
nem tudo é perversão

Não.
O errado não vai certo:
o errôneo e vil chamado
esse assim só foi tachado
porque não se viu de perto

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Escarlate Digital

Segue, curte
Põe as unhas em vermelho

Bebe, dança
Videografa em HD

Posta assim,
até parece mais
postal 
do que real

              Realeza virtual.

sábado, 28 de maio de 2011

Pôr-do-sonho


                Com 40 anos de idade, qualquer uma já teria desistido de esperar pelo príncipe encantado. Menos ela.
                Sempre fora gorda, embora já houvesse seguido todo tipo de dieta. Era também  supersticiosa, e negava. Enxovalhava as apelações miraculosas das amigas quando jovem. Oxum e Santo Antônio a decepcionaram.
                Obviamente era virgem. E resmungava aos casaizinhos bobos na futilidade de um amor que viviam aos montes sob sua janela assistindo ao pôr-do-sol naquela hora perigosa do dia. Tinha uma visão melancólica do seu sobrado. Perdera as contas de quantas vezes faltou à missa por ceder tristemente ao momento rosa - alaranjado da morte solar diária.
                No domingo, dia santo, cumpriu ordinariamente os rituais da oração, do banho e do café amargamente ralo do dia anterior. Não contava a ninguém, mas era preguiçosa. Banhava-se porque sabia era obrigação de toda mulher ser asseada (e precisava estar pronta para quando ele chegasse). As roupas, sempre muito decentes e dignas. Não era mulher de andar por aí com o colo à mostra, embora muitas vezes admirava-o ao espelho. Pecava terrivelmente em segredo ao gostar de ver-se nua. Atrevia-se. Se alguém descobrisse, morreria. Ninguém a perdoaria, ninguém a desejaria como esposa; ninguém ousava.
                A missa começava às oito, e ela seria pontual, não fosse o sorriso de um imberbe sorveteiro na esquina da rua. Estava quente aquela manhã e seria um prazer inusitado. Pediu-lhe de morango e muita calda, embebida pela gentileza do rapaz.
                Recebeu Cristo por hábito, sentia-se suja pelo pensamento que lhe percorria o corpo. Voltou a casa e concluiu: era ele. Correu ao antigo armário e retirou de uma enorme caixa de costura lindamente bordada seu vestido de noiva. Ela mesma o fizera, numa época de forte regime, alcançando o tamanho 46. Não lhe servia perfeitamente, mas poderia vesti-lo, não sem a combinação perfumadíssima de jasmim. Vestiu-se até o véu e não resistiu ao espelho. Abriu os olhos finalmente: ele riria de sua atitude ridícula. Estava velha. Tinha cabelos brancos, olhar fosco, pele opaca. Não se casaria nunca.
                Foi ao jornal e anunciou:
“Vende-se um vestido de noiva. Branco. Nunca usado. Tamanho 46. Tratar com Miss Algarve.”

Julho de 2005

Não obstante

Ele só sabia que estava longe. Caminhava seguindo informações de clowns sorrindo-lhe direções que faziam sentido. Carpe diem, novo, juventude felizmente demonstrada, apreciada por quem o aplaude no caminho. Mas estava longe. Talvez soubesse que havia alguém o acompanhando em pensamento, pessoa diferente das presumíveis, que já lhe fora importante, hoje distante, difícil de conceber a proximidade que de fato existia.
Quando perto, viam-se em desencontros desconcertantemente frequentes.  Agora, além do que sobrou, caminha ele notoriamente só, perdido, pelos sonhos de quem não se afasta.

terça-feira, 17 de maio de 2011

À falta de um amigo

De você, afeto, gratidão, saudade
Rompimento difícil, triste, órfão
que não maculou admiração, orgulho
de você e de mim, lisonjeada por tê-lo dividido com a vida.

E o hoje não há mais
uma ligação que me traga
sua voz - conselho ao telefone.
Mas o que me trago ao peito é a ligação
feita forte, herdeira
de aprendizado.

No cheiro marítimo de um bairro,
no livro triste de Clarice,
ou no meio do meu trabalho
Sou um sorriso manso
e um olhar pra dentro
lembrando, sentindo, ouvindo
presente.


                               Obrigada sempre.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Texto de alunas

Meus alunos me surpreendem. Outro dia, pedi que fizessem uma crônica de humor sobre o cotidiano escolar, e olha a surpresa aí em baixo! Adorei!

Professores e suas "manias"

Todos alguma vez já pararam para observar seus professores e certamente os que ainda não fizeram, após a leitura desse texto, com certeza irão.
Sentados de frente para o quadro, eis que surgem "eles"... Os professores.
A primeira "figura" que iremos citar, não é mais nada mais nem nada menos que a nossa querida professora de inglês. Ela vive nos dando lições de moral e nos fazendo pensar em nosso futuro não tão distante. Ah! e como ela facilmente consegue mudar de um assunto para o outro totalmente diferente, além disso ela canta, dança, ri e se acha a ultima cocada preta do mundo. Apesar disso tudo, ela não deixa de sair da sala sem o seu "pequeno resumo" no quadro inteiro.
Não podemos esquecer-nos da "tampinha, mas não invisível" professora de ciências, que quase não sorri em sua aula, é jogo duro. Ela sempre da110% de seu conhecimento em todas as suas aulas, mas se quiser fazê-la sorrir... Fale sobre jegues, sim! Ela tem uma "atração" por jegues.
Matemática... Ah matemática! Matéria das emoções. Temos um bom professor que ensina bem, é amigo de seus alunos, quando preciso da umas broncas, enche a gente de atividades "pro nosso bem", mas quem nunca se questionou quando ele olha em nossa direção, mas não esta nos olhando e sim olhando para o teto? O que tem no teto? Cansamos de acompanhar seu olhar a procura de um monstro invisível, talvez?!
Aula de redação... A gente ri, escreve texto, brinca, escreve texto, faz atividades avaliativas, escreve textos e não podemos esquecer que escrevemos textos. Sim, escrevemos muitos textos. A professora da gente sempre entra na sala com um sorriso imenso no rosto, meio descabelada e muito feliz. Quando ela fala, seus olhos chegam a brilhar de emoção, ou loucura mesmo. A questão é que ela sempre, sempre nos faz lembrar Alvin e os esquilos após uma boa dose de café e nos faz rir, e nos sentir felizes mesmo escrevendo textos e mais textos.
Bom, descrevemos alguns dos nossos professores que apesar de suas não tão perfeitas perfeições nos fazem felizes, inteligentes e pessoas capazes de um futuro melhor, um futuro digno e com conhecimento. Desculpe aqueles não foram citados, não significa que não gostamos de vocês ou que vocês são menos importantes... Muito pelo contrário adoramos todos vocês.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Epopeia


Uma dor triste, um coração cicatrizado...




Que ninguém vai atender...


Não vale a pena...



Quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo



Nem se atreva!

sábado, 30 de abril de 2011

Deixo para amanhã

Individualidade espontânea reprime-se, oprimida pelo imposto trabalho e pelas seduções brilhantes do entretenimento.
Saco...

Pós-modernidade

Admito (plágio talvez permitido): acho que estou ficando sentimentaloide mesmo. Hoje me emocionei assistindo a Leandro e Leonardo! O contexto pode ter sido favorável para isso (e é sempre): sábado, à noite, eu em casa, sozinha, comendo (de colher) um resto de brigadeiro duro da geladeira e tentando aproveitar os R$69,90 que me custa ter uma TV a cabo de que nunca consigo usufruir. Enfim, deu pra perceber como a coisa estava boa pra meu lado.
    Pois então, como dizia, cá estou eu, em pleno fim de semana que "bomba" no verão soteropolitano. Fico só, diante da TV e me emociono com a pieguice pura da música sertaneja. Achei bonito o modo como a dupla, despretensiosamente, cantava seu sucesso brega, com seu público ordinariamente apaixonado.
         Como passei a acreditar, só há estranhamento na arte com identificação e, inconsciente disso nesse momento, tive uma catarse (acreditem!) com a letra boba de um amor saudoso.
         É fato: pode não haver vanguarda, inovação, rebuscamento metafórico na cultura de massa, mas ela é inevitavelmente – como dizem seus representantes – “flecha de cupido” sobre qualquer um. Isso é que é interessante. Porém, é justamente essa fácil acessibilidade que a distancia daqueles que se julgam intelectuais: sempre querendo a “área VIP” (denominada “cena alternativa” ou “cult”), gente pretensiosa, que se considera queísticamente superior, não permite (ou não admite) que a comoção tome conta de si a partir de algo que atinge a tanta gente. é preciso ser diferente, pertencer ao universo “in” e, com um olhar desdenhoso e quase enjoado, afirmar que aquilo não lhe acrescenta nada... Na moral, minha gente, desde quando arte TEM que acrescentar alguma coisa? A arte pode despertar um olhar, um sentimento, um estranhamento, e cada um fará disso o que quiser e tiver capacidade.
         Chamo a música que ouvi de arte, sim, porque fui tocada por uma experiência estética. Permiti-me. Não quero achar que, para algo me atingir, seja necessariamente rebuscado e cheio de intertextualidades restritíssimas.
         Minha gente, parece que o Parnasianismo está voltando. Já chega disso, né? Desde 1922 se tenta derrubar essa visão tão limitada. Experiências catárticas acontecem sob várias sensações: desde a depressão amorosa (com Vinícius e Leandro & Leonardo) à libido (lindamente descrita por Clarice, mas visceralmente vivida e incitada por Léo Santana).
         Assim, voltemos ao mundo compartilhado. Torres de marfim são lindas, mas não precisam ser tão altas. Podemos descer ao play e carnavalizar, mortais que somos. Aliás, acho que, na verdade, esse é um desejo inconsciente, reprimido por uma vaidade social, que nos coíbe o arrepio dos pelos diante daquilo que nos identifica como iguais. Faz sentido?
         Ou é isso, ou eu tô ficando besta mesmo.
        
P.S.: Fica a dica: este texto foi inspirado em “Temporal de Amor” (Leandro e Leonardo) e “Desce” (perfeita de Arnaldo Antunes).

Pseudo-memória

Coisa doida é fotografia, pintura, representações que sejam. Não é que elas captam o sentimento, mas têm potência para provocar. Inquieta, a imagem sorri morta: "Ceci n'est pas une pipe". Mas nós, iludidos na falaciosa busca humana, enxergamos vida, vemos sombras e pensamos ser gente. Pensamos que, só porque há felicidade captada em flash, haverá possibilidade de retomá-la, senti-la de novo. Vemos, mais uma vez, um olhar que parece pôr pra fora qualquer sentimento, mas nem sabemos que até mesmo os olhares podem ser apenas imagens: atores da caverna.
Às vezes, não: translucidamo-nos. Deixamos aparecer nosso eu sincero (quase sempre involuntariamente, é claro - sorte dos que podem fazê-lo conscientes); como se, por um lapso, nos esquecêssemos das máscaras e nosso sentimento quisesse sair, pôr a cara no mundo, olhar bem nos olhos do grande mágico, aproveitando o desleixo da porta entreaberta.
Só quem já sentiu na pele as consequências de ter deixado (sem querer) um sentimento aparecer em uma fotografia sabe a raiva que dá no momento da re-ve-la-ção. Complicado. Não se pode esconder a cara num buraco: ela está lá, estampada, explícita, provando o que se queria esconder, flagrante de um milésimo de segundo.
Mas tudo bem. É assim que funciona. Acho que não dá para encenar o tempo inteiro. De vez em quando, alguém nos fotografa sem câmera, vê esses instantes de brecha para a alma e percebe, mas não tem como provar, ou rever. Mas, cá entre nós, são essas as fotografias mais verossímeis: contemplam, ao mesmo tempo, o olhar do outro e o nosso. Passam-se tempos e se pode retomar, desses álbuns incontritos e inconcretos, o que importa mesmo. Se é verdade ou não, só interessa a versão, lembrança, recordação. Afinal, se tudo é representação, valoremos aquilo de cuja construção fizemos parte.

Momento

Chega um momento
Em que o omisso grita.

Sufocamo-lo sempre
Mas seu sentido supera
Qualquer auto-ajuda.

Chega um momento
Em que o sonho, triste que seja,
Vil que surja,
Bruto que nasça,
Precisa se libertar

É quando, enfim,
Deparamo-nos com o que há de mais íntimo,
Aquilo que, de tão empurrado, escondido, abafado,
Impregnou-se tanto
Que sai com e como parte de nós
Como pedaço da nossa forma humana

O tosco busca sair,
Mas somos nós que o ruminamos todos os dias
Envergonhados, embora.

Mas eis que chega o momento
(inevitável instante da temida exposição)
E, expostos ao julgamento alheio,
Vomitamos um naco de nossas almas

Chega o momento
Em que é preciso olhar
bem no fundo dos grandes olhos do feitor.

É quando, enfim,
Nos livramos dele
Ou descobrimos, em sobressalto,
Que o castigo jamais existiu.



Prenhe-poética

Todo esse tempo
Essa aflita felicidade inquieta
Só tentou abafar o que era óbvio:
Estou grávida de poesia.

Com medo que os filhos me lembrem seu pai,
Esqueci a gestação
Que se seguiu silenciosamente involuntária.

E hoje descobri que,
sendo a dor parte do parto,
aceito-a,
ansiosa que estou de sentir a maternidade.

Os momentos de inspiração fecundinária
Virão inevitáveis nos olhos do rebento.
Mas ele é tão belo
Que consola a melancólica mágoa que me recorda.

Que venha a dor, mal de quem ama;
Que traga o choro, fruto dos ventres vazios;
Que chegue tudo o que sempre escondi
Por trás desse sorriso.

Quero que a verdade abafada dos travesseiros berre nas madrugadas
E eu, acordada, acalentando-a,
Possa amamentar-me de esperança
Para, quem sabe um dia,
Voltar a ser fértil.

Galope

Queria mesmo escrever uma carta. Sempre soube que era melhor no papel do que na voz.Parece que os acontecimentos conspiram conscientemente. O pensar positivo pode ser um iludir-se. É claro que é mais confortante pensar que “tudo tem seu momento”, mas é preciso tomar as rédeas da vida, um cavalo que não é livre, mas corre descontroladamente para onde lhe abrem um caminho tonto, desesperado, fugindo de si – rota de fuga. Escolha... De repente, depara-se com um grande  oceano em tempestade: a onda o toma e leva-o a mais uma trajetória desconhecida, na qual ele continua cavalgando, cada vez mais sufocado, em busca incansável pela perfeição do percurso, lamentando-se e  (des?)culpando-se a cada deslize fora da linha traçada pela grande força das águas. Quem dera a esse galope ter asas, chifre ou quem o governasse para tirá-lo desse afogamento agora inevitável. Talvez pudesse emergir e abrir os olhos no ar, encher o peito do mais puro ar do céu que toca o oceano na linha intocável: o sonho.

Há tempos...

Que seja assim então...Dias cheios, telefonemas, encontros
E a plenitude do vazio.
A saudade inunda de nadae a mente busca o preenchimento por ocupação.
Foco: Nego-ócio.
Sigamos em frente
Quem sabe isso acabeou se acomode, obrigado.
De nada.

Resposta

-Não sei se sabe que era de você que eu estava falando.
-Foi? Não percebi relação.
-A relação fui eu que fiz. De fato, não havia. Inventei.
-E o que quis dizer?
-Quis, não. Disse.
-Que seja, então. O que disse?
-Disse-me a você. Mostrei quem sou e o que quero.
-Mas pelo menos está lúcida: Você mesma disse que foi ilusão.
-Ilusão, não. Criação. Mas parece que errei de palavra. Você soa mais certo.
-Se ligue: eu não vou viajar na sua pieguice que indiretamente tenta me comover, achando que me seduz. Sendo duro e franco: acho que você cria expectativas demais. Relaxe. Tô bem como tô, aqui, buscando o que quero.
-Entendo. Mas não me importo com você, como está ou coisa do tipo. Na verdade, era importante ter um alvo para servir de inspiração, algo como uma droga, que você sabe que é alucinógeno, mas se preocupa apenas com o efeito. Entende?
-Não, mas tudo bem. Desde que você não me importune ou faça cara de criança chorona quando vir o que não quer.
-Se falar com você qualquer amenidade for importuná-lo, avise. Paro tranquila. E quanto à "cara de criança chorona", reforço: não é para você; é só efeito. Não desejo qualquer tipo de preocupação da sua parte, ok?
-Agora estamos conscientes.
-Eu sempre estive, só achei que não havia necessidade de grosseria. Mas tudo bem. Não me magoa sinceridade. Tenho consciência emocional (não tanta inteligência quanto você pensa que tem).
-Ok, então. Parece que chegamos a um nível ruim, mas tudo bem. Pelo menos esclarecemos tudo.
-Esclareci a você. O nível, para mim, é o de sempre. Mas saio disso, porque o que mudou foi meu interesse. Acho que agora, vendo você real, perdi a vontade de torná-lo ideal. Sempre foi uma personagem esférica em minha literatura, mas agora se mostrou totalmete plano e previsível. Preciso mudar de fonte. Cansei.
-Beleza então.
-Beleza.

(Ela volta para casa. Revê fotos antigas e sorri. Fecha seus álbuns e cadernos e seu clelular lhe lembra que tem hora marcada no salão)

Fim do primeiro ato.

O homem sem cabeça

http://www.youtube.com/watch?v=o538yb68hMA&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=EetfkJBogi8

O homem sem cabeça também tem vaidadeExpressar sentimentos, revelar emoçõesComo? Em que dar close?No peito.
Dançar sozinho o ensaio do encontroLembrar que o amor também sufocaPerder a cabeça eResgatar o sentimento atirado pela janelaNegar-se e buscar espelho no outro.
Amar e viver é muito perigoso.O amor é um bicho-de-sete-cabeçasque come nossos pensamentos e,por medo, cedemos.“E quem um dia ia dizer que existe razãoNas coisas feitas pelo coração?”
Anular-se, decapitar-seFoi a solução involuntáriaTenta-se atéSer o cabeça do espetáculoOu acostumar-se a ser um “cabeça pequena”.
Mas ou não se correspondeÀs expectativas do espectadorOu ao desejo do interior
Transeuntes não vêem a ausência (invisível)Ausência que também a eles preenche.
Todavia, nos lembremos:Temos mãos (e vamos de mãos dadas)Que se perca a ideologiaOu a busca da identidade (perdida?)Que nunca se encontra
Ceder apenas ao corpo, coração, peleIr embora sem por quêEsquecendo-se do euPara a infelicidade satisfatóriaDe viver pelo outro.Amor,